NÃO SE DEVE CONFUNDIR PERSONALISMO COM LIBERALISMO NEM PESSOA COM INDIVÍDUO


NÃO SE DEVE CONFUNDIR PERSONALISMO COM LIBERALISMO
NEM  PESSOA COM INDIVÍDUO

Daniel da Costa[1]

Os velhos e ultrapassados compromissos históricos assumidos pelo liberalismo com seus pares decadentes – a moral burguesa, o individualismo reivindicador, o mundo do dinheiro, com seu primado do lucro sobre o da produção, a sua pseudo-democracia para poucos, parlamentar representativa, o seu juridismo abstrato, totalmente desligado da vida real e instaurador da ditadura do legalismo abstrato, é o que compõe, para o personalismo, o adiamento da pessoa, pela ideologia liberal, em proveito do seu “indivíduo”. Adiamento que hoje, com mais requintes, continua na sua suposta nova-velha versão chamada neoliberalismo. Que nada mais é do que, junto com seu modelo atual de globalização, por sua vez, a vontade de voltar ao capitalismo anárquico do início da Revolução Industrial, na base de uma afirmação muito mais violenta e radical da competição e do individualismo. Com o primeiro, liberando os indivíduos isolados, irresponsáveis e sem face das atuais sociedades liberais, para agirem sobre o mundo da vida irresponsavelmente, orientados pelo velho eros e hybris do naturalismo liberal; e com o segundo, autorizando o indivíduo liberal a fazer isso porque, além de tomar a vida social como expressão de selvageria animalesca em um salve-se quem puder, entende a si mesmo, sua idiossincrasia e reflexos próprios adquiridos, sempre como o centro de referência universal em relação a tudo.   
Todavia, estes compromissos históricos da ideologia liberal não conseguem deixar de se expor, apesar de toda sua retórica de camuflagem: defesa da liberdade, da democracia, da ética na política, do direito de expressão, dos direitos humanos etc. A mentira liberal, que encobre estes slogans clássicos, pode ser submetida a uma experimentação axiológico-existencial por via reflexiva, a fim de que sua decadência de morte se explicite. O presente artigo pretende fazer esta “experimentação” intelectual por meio da análise de alguns dos componentes do complexo liberal com base na perspectiva crítica personalista de Emmanuel Mounier. Assim antes que um exaurimento da questão, o que se pretende é uma modesta aproximação.

O Engajamento  
A experimentação intelectual, que se dá vida interior portanto, de que falamos aqui, se liga ao primeiro ato, a primeira atitude da vida pessoal em relação à vida anônima do indivíduo liberal.  Esta vida anônima e irresponsável se propôs na linha do horizonte do Ocidente desde o surgimento da modernidade burguesa e firmou-se, definitivamente, com a hegemonia da ideologia liberal. Portanto, frente a essa vida anônima, no personalismo mounieriano, propõe-se um “ato” que funda a base da crítica personalista quanto o princípio do seu ato revolucionário. Este ato é, antes de tudo, uma autocrítica. Por isso mesmo, não permite qualquer tipo de evasão teórica ou logicista que queira tomar o fenômeno social sob a armadilha de uma pretensa objetividade que, humanamente, é impossível. Já que o pressuposto epistemológico personalista é o da participação incontornável do sujeito na vida do objeto. Resta à pessoa tomar consciência clara disso.

A liberdade da pessoa é a de descobrir ela mesma a sua vocação e de adotar livremente os meios para realizá-la. Ela não é uma liberdade de abstenção, mas uma liberdade de engajamento.[2] [grifo nosso]

Para Mounier, fala-se muito de engajamento como se fosse algo que dependesse unicamente de nós. Todavia, lançados no mundo, nós estamos previamente engajados. A questão é o quanto este engajamento – que só toma o sentido da verdade plena de sua expressão na conclusão de uma vida concreta – apresenta a solidez de um trajeto que se manteve na dramática de uma fidelidade aos valores que disse, ao longo do trajeto, ter assumido. Trata-se, por parte da pessoa, de fidelidade a si mesma, nas pequenas e grandes ações tomadas no tempo dilacerante. Pois é fidelidade aos valores que comporão o arco de sentido de sua vida, da vida de uma pessoa responsável e engajada.
É ato de lucidez, portanto, pois é tomado na convicção de um compromisso, de uma fidelidade aos valores. Assim, é o ato que mais especifica o ser humano: é a sua vocação. O engajamento, para o personalismo, tem o próprio sentido da afirmação da vida. Pois é o estrado sobre o qual, de maneira incontornável, a vida de cada um se ampara. E a escolha da pessoa criadora, pelo personalismo, como expressão mesma dessa vida é o que lhe faz buscar esclarecer, fora da mentira liberal, os valores que são correspondentes ao universo da vida pessoal relacional contra a vida anônima e indiferente do indivíduo liberal.[3]

A autocrítica

Para o personalismo, sem um primeiro ato fundante de autocrítica, a crítica torna-se evasão e por isso cumplicidade na mentira geral. Encontramos essa consciência de autocrítica presente em Mounier desde os seus primeiros escritos:

O primeiro ato de iniciação à pessoa é a tomada de consciência de minha vida anônima. O primeiro passo, correlativo, de iniciação à comunidade, é a tomada de consciência de minha vida indiferente: indiferença aos outros porque é indiferença dos outros.[4]

Até nos seus mais recentes:

O mundo do Se não constitui nem um nós nem um todo. Ele não está ligado a tal ou qual forma social, ele é, em todos, uma maneira de ser.[5] [este grifo é nosso] O primeiro ato da vida pessoal é a tomada de consciência dessa vida anônima e a revolta contra a degradação que ela representa.[6]

O reconhecimento desse ato deve ser entendido como pressuposto em nosso remetimento à crítica elaborada por Emmanuel Mounier, e sua equipe em Esprit, e se configura como a análise da qual nos valemos aqui para estabelecer uma aproximação ao fenômeno do liberalismo, da ideologia liberal.



Personalismo e liberalismo

            Paul Ricouer, em um artigo de 1983, lamenta “a escolha infeliz, pelo fundador do movimento Esprit, de um termo em –ismo, ademais posto em competição com outros –ismos que se nos mostram amplamente hoje em dia como fantasmas conceituais”.[7]
  Essa observação de Ricouer, por outro lado, está em total sintonia com a própria proposta de Mounier que identifica a radicalidade de sua reflexão como anti-ideológica.[8] Tanto que Ricouer, não obstante o –ismo de personalismo, e a partir desta matriz de reflexão personalista (Ricouer era integrante da equipe de Esprit e sempre se declarou personalista), pode encontrar e cunhar uma expressão mais feliz para definir a reflexão de Mounier. Não como uma filosofia, simplesmente de profissão, mas como um pensamento que propõe “matrizes filosóficas”.[9]
Não obstante tudo isso, pelo fato dos outros –ismos que perfaziam, junto com o personalismo, um reino tripartie, “personalismo-existencialismo-marxismo”, terem sido entendidos por Mounier como característica durável de uma época e que tomam hoje o caráter de uma ilusão[10], seria temerário concluirmos que não poderíamos mais esclarecer o caráter ideológico, passível de descrição, do liberalismo. Pois não obstante também o –ismo e todas as críticas que são pertinentes a este sufixo, (como Ricoeur bem vê em relação ao marxismo, ao existencialismo e ao próprio personalismo), o liberalismo é uma ideologia que, definitivamente elaborada, continua atuante e reinante no mundo atual há mais de 300 anos, mas como se não fosse uma ideologia. Como se fosse expressão mesma da natureza das coisas.
Colocando-se sempre como uma “novidade” e “competência” em matéria de política e economia, a velha e arqueada ideologia liberal permanece, por outro lado, firme sobre os seus constituintes caducos de base: a moral burguesa (moralismo, base dos hábitos = sua ética); o individualismo (base de sua antropologia, de sua maneira de entender quem é o ser humano); seu naturalismo (sua metafísica, sua cosmologia, sua compreensão do que é a natureza); o sistema financeiro capitalista (capitalismo: toda a base de sua economia, do seu mundo do dinheiro; um mero motor no sentido do lucro sem serviço prestado, cuja inércia é supostamente orientada, segundo a ideologia liberal, por sua crença metafísica na mão invisível que regularia, teleologicamente, os egoísmos dos seus indivíduos para que finalizem em justiça distributiva e equidade social); e sua pseudo-democracia excludente, para poucos, parlamentar representativa (base de sua política liberal). Tudo isso, hoje, permanece inalterado, mesmo em sua suposta nova versão chamada neoliberalismo. O que mudou foi o nível maior alcançado de abstração em seu característico abandono do mundo concreto que tem dado maior espaço para o capital rentista não produtivo. E, concomitantemente, sua maior tenacidade e sutileza na aplicação da violência e da repressão sobre a vida social, graças à presença de seus falsos valores aceitos pela massa como expressão da natureza das coisas. Além de sua maior capacidade de destruição ao ecossistema, graças ao círculo auto-contido e irresponsável produção-consumo do seu esquema econômico mais próximo da esfera produtiva, mas sempre desvinculado das necessidades reais da vida humana.       
Por outro lado, mesmo com o risco das grandes narrativas, apontado pelas atuais críticas das chamadas “ontologias regionais”, um risco, portanto, que se encontra também contido na “grande narrativa” do liberalismo, com seu ismo próprio, estas mesmas ontologias contemporâneas, no entanto, não conseguem, por sua vez, propor uma saída em conjunto desta ideologia liberal dominante. E isso, após terem mantido um encalço ferrenho sobre os –ismos do existencialismo, marxismo e personalismo. Na verdade, parece mais haver, por parte destas ontologias regionais, antes um consenso de convivência pacífica com e aceitação da ideologia liberal do que um enfrentamento lúcido real. Há de se questionar se estas ontologias regionais, com seu ceticismo e relativismo dissolventes, não acabam, por fim, ao serviço do aprofundamento e radicalização do individualismo liberal.
O personalismo também corre o risco de um engessamento ideológico, sem dúvida. Mas não é esse o caso aqui. Quem chama para si o papel de ideologia hegemônica, mesmo sem o dizer, por desejar ser tomada já como “expressão da natureza” das coisas naturais e culturais, é o liberalismo, e não o personalismo. Assim, sem a pretensão de se propor como uma narrativa totalizante, mesmo que sub-reptícia, como faz o liberalismo, o personalismo será tomado aqui como uma matriz filosófica crítica e frontal diante desse atual “totalitarismo sutil” mundial, usurpador e coercivo, que é a ideologia liberal. Uma característica que o liberalismo mantém sempre pressionando contra quaisquer aspirações fundamentais ou ensejos por um projeto democrático inclusivo e participativo sob instituições justas. Projeto que, inscrevendo seu princípio e dinâmica na história desde o século VI a.C. na Grécia clássica, pertence à humanidade, e não a uma ideologia moderna específica e datada como a do liberalismo. Assim, será com base nesse critério de matriz crítica que o personalismo deverá ser julgado. O personalismo deve ser julgado quanto a se se integra e ainda tem força de participação no movimento de inclusão e de universalização concreta. Visto este movimento de libertação estar contido no princípio democrático que se destaca na história a partir do ensaio da incipiente democracia elitista, para poucos, iniciada pelos gregos, mas que foi ampliada e radicalizada, no primeiro século, pela mensagem e atuação subversivas do cristianismo primitivo.

Democracia personalista e democracia liberal  

Para o personalismo de Mounier, as inspirações que se encontram na base do ideal democrático, e que se inscrevem dentro do próprio movimento de personalização, tomam o seu primeiro esboço e sentido, como política, na experiência, todavia restrita, de constituição da cidade grega antiga. Mas este ensaio grego, para Mounier, não deixou de sofrer a influência do universalismo cristão. Isso faz com que à pergunta feita a Mounier sobre se ele era pró ou contra a democracia ele tenha respondido: “somos pró a democracia que está por se fazer, e contra a democracia que se desfaz.”[11]
Nesse sentido, para o personalismo, o liberalismo é tão democrático quanto qualquer outro regime que tenha lançado mão desta noção esvaziada e volátil como mote de sustentação e legitimação de sua demagogia, seja parlamentar ou presidencialista. Consequentemente, o liberalismo, mesmo em sua complexidade fenomênica, não foge à análise que se possa fazer dos mesmos moventes mais íntimos que deram surgimento aos regimes totalitários. Pois estes, assim como o liberalismo, sempre se justificaram pela rubrica retórica de defesa da “democracia”. Segundo o personalismo, estes são regimes que não elegem a pessoa concreta, em suas prerrogativas incontornáveis, como a base doadora de sentido e aferidora última das táticas e das ações políticas. E o fazem sempre em proveito da escolha do indivíduo sem face e anônimo. Seja este indivíduo integrado ao coletivismo orgânico (nazismo) ou estatal (fascismo) ou massificado nas sociedades de consumo do atual totalitarismo sutil (sociedades liberais). Nesse sentido ainda, diz Mounier:

Começamos, pois, por uma escolha brutal. Chamamos regime totalitário a todo regime no qual uma aristocracia (minoritária ou majoritária), do dinheiro, de classe ou de partido, assume, impondo suas vontades, os destinos de uma massa amorfa – seja ela consentidora e entusiasta, e tenha ela, por aí mesmo, a ilusão de estar sendo refletida. Exemplos em níveis diversos: as “democracias” capitalistas e estatizantes, os fascismos, o comunismo stalinista. ... Chamamos democracia, com todos os qualificativos e superlativos que se deve, para não confundi-los com suas minúsculas contrafações, o regime que repousa sobre a responsabilidade e a organização funcional [grifo nosso] de todas as pessoas constituindo a comunidade social.[12] Então, sim, sem rodeios, nós estamos do lado da democracia. Acrescentamos que, desviada de sua origem por seus primeiros ideólogos, mais estrangulada no berço, e pelo mundo do dinheiro, esta democracia jamais foi realizada de fato, e que ela se encontra com dificuldade nos espíritos.[13]

Como dissemos, a experiência grega se inscreve, em suas inspirações mais profundas, mesmo no seu modo elitista e excludente, no movimento de personalização, e não de individualismo. É na Grécia, portanto, que encontramos, em seus primeiros balbuciamentos democráticos, o movimento próprio da pessoa emergente. A partir destes balbuciamentos, constitui-se uma base de verdade sobre a qual a mentira ocidental, e sua democracia liberal para poucos, tem se mantido. Aliás, como diz Mounier, a mentira só se mantém porque se nutre, como um parasita, da seiva da verdade que ela, num segundo momento, compromete.[14]
O cristianismo de Mounier não lhe permite idealizar[15], por isso ele sabe que, quanto ao tipo de crítica que pretendeu iniciar em Esprit, não se tratava apenas de construir uma “boa teoria” sobre o mundo. Pois, sobre o fundo axiológico em que os problemas se perspectivam, o ponto inicial para o nosso filósofo é um apelo ao que se mantém de irredutivelmente humano, irredutivelmente pessoal e concreto, irredutivelmente não inventariável, em cada um dos seus leitores. E não a expectativa de aquiescência, por parte do público, de uma suposta boa descrição de como as coisas são.

A prosperidade permite o jogo e mascara a injustiça. A miséria oprime o ser humano sobre os seus problemas essenciais e faz descobrir, através dos grandes véus de encobrimento, os pecados de um regime. A experiência ou a proximidade da miséria, eis aí nosso batismo de fogo. [grifo nosso][16]

E, mais à frente:

Não é somente o caso dos homens servirem por sua vez abertamente a Deus e a Mamon[17]: pode-se evitar um perigo desaforado. Mas as próprias palavras que se crêem puras ocultam a mentira e a duplicidade à força de viver entre os homens duplos. Nós romperemos com estes homens, quebraremos estas palavras, e trabalharemos para purificar estes valores aos quais seus próprios inimigos, no mal-entendido atual, são, mais de uma vez, profundamente fiéis.[18]


A autoconsciência e consciência de si
A situação em que a civilização moderna estava metida (e, salvo alguma ilusão da minha parte, essencialmente continua), e por sua própria condescendência ao jogo mentiroso que a decadência burguesa havia lhe imposto, fez com que o início do ato filosófico de Mounier, em vez de se dar por um espanto contemplativo de admiração pelo vislumbre da beleza do mundo, ou, antes, pelo despertamento inquiridor do ser, como queria Aristóteles[19], se desse com um “espanto” diante da miséria da decadência do indivíduo liberal moderno e sua mentira acerca de si mesmo, mantida para encobrir e estancar a emergência da pessoa e sua dignidade.[20] Por isso: “Tomar consciência em nós, em torno de nós, [não só] da mentira coletiva [mas também da] individual.”[21]
Para o personalismo, portanto, a consciência deve se dar primeiro por parte da própria pessoa em relação a si mesma. Consciência que é autoconsciência de sua inserção e participação incontornáveis na presente realidade: uma autoconsciência crítica. Consequentemente, uma consciência incipiente, mas que deve se expandir e se externar como consciência dos verdadeiros condicionamentos ao seu entorno. Daí, e só daí, então, a pessoa se encontra em posse dos constituintes do que se denomina, finalmente, de consciência crítica. Não é necessário que a consciência siga esta trajetória. Cada pessoa tem a sua maneira própria de chegar a esta consciência amadurecida. Todavia, em qualquer consciência que se diga crítica, mas que venha a faltar um desses aspectos fundamentais (o caráter interno e externo do ato de consciência lúcida, ou seja, de consciência de si e do mundo), o personalismo não deixará de apontar a sua meia verdade.
Do ponto de vista do primado desta consciência de si, requerida pelo pensamento de Mounier, justifica-se, então, uma aproximação ao fenômeno do liberalismo. Já que esta ideologia tem conseguido inocular-se no interior dos indivíduos sem face das sociedades burguesas capitalistas atuais como uma espécie já de segunda natureza. De tal forma que podemos dizer que o sonho de todo regime totalitário, que possa querer se impor pela força, foi conseguido pela ideologia liberal pela sutileza de sua inoculação dentro dos indivíduos. Mas sempre, se for preciso, com o aparato da guerra, emoldurado sempre pela retórica da necessidade da paz. Da paz liberal de superfície, que, ao sentir sua falsa paz sobre a injustiça ser ameaçada, não sente nenhum freio em seu reflexo sempre pronto a fazer o fascismo e preparar uma nova guerra.
O liberalismo tem imperado e pretendido delinear as formas de vida imprimindo-lhes o seu espírito de guerra pela visão da vida social e humana como um campo insano de carnificina e competição. Onde imperam o ressentimento, e o desejo de vingança. Devemos lembrar que, no atual balaio do que se configura pelo nome de neoliberalismo, o capitalismo, com toda a arrogância de se pretender detentor único hegemônico sobre o que diga respeito à dimensão econômica da vida humana, “ainda é” o modelo econômico adotado. Para Mounier, assim como o liberalismo político corresponde a um totalitarismo sutil, o capitalismo não responde à definição de tirano da filosofia política porque é uma grandeza que ultrapassa, em ignomínia e em capacidade de inumanidade e destruição, o conceito clássico de tirano da história do pensamento político. Pois, nenhum tirano na história conseguiu matar e dizimar tantas vidas e continuar no anonimato como o capitalismo.[22] Liberalismo político e liberalismo econômico são axiologicamente irmãos siameses.


A tara juridista liberal

Todavia, este jogo de morte não é articulado sem respaldo na lei. Como diz o personalista Jean Lacroix, o juridismo liberal é a esfera de poder fundamental para um liberal típico defender sua democracia elitista e excludente, democracia para poucos:

O liberalismo é a distinção, levada até a separação, do privado e do público. A sua penetração opera-se cada vez mais na vida, e, então, uma nova codificação jurídica deverá confirmá-la. [23]

Essa tendência da “vontade de contenção e de dominação” da realidade concreta, por parte do espírito liberal, por meio do seu juridismo mirabolante[24], é um dado suficiente para nos manter alertas a respeito de todo o pretenso discurso técnico jurídico-filosófico atual e sua vontade de açambarcamento dos problemas concretos e emergentes do mundo da vida nas teias do seu abstracionismo jurídico.  De sua técnica da linguagem jurídico filosófica atual. Todavia, o juridismo não é uma característica recente do liberalismo, é sua tara ingênita.
Essa doença do liberalismo pode ser claramente constatada a partir de livros de autores simpatizantes seus. [25] Nestes, essa decadência é tomada por tão certa que é vista já como parte da “natureza humana”. E de tal maneira que ficamos em dúvida quanto a sua apologética, se se trata de ingenuidade ou de cinismo.[26] Esse tipo de sentimento do liberal típico, que obscurece o juízo do indivíduo mediano, é percebido pelo colaborador em Esprit, Harold Laski, já nos alvoreceres do liberalismo clássico:

O centro criador do pensamento liberal, no século XVIII, é a França. ... O pensamento político inglês, nos setenta anos que antecederam a Revolução Francesa, pouco mais fez do que elaborar as implicações da filosofia de Locke. Não será irrazoável dizer que o próprio Adam Smith desenvolveu com magistral ênfase uma doutrina cujos postulados já existiam antes de seu tempo ... O inglês médio do século XVIII estava, se me permitem usar um paradoxo, em pazmesmo quando estava em guerra. Sentia que tinha feito seu pacto com o destino. Preocupava-se mais com os detalhes do que com os princípios do sistema em que vivia. [grifo nosso][27]

Ora essa atitude característica da ideologia liberal não é neutra. É comprometida com valores específicos e identificáveis, para quem quiser ver. E todo esforço abstracionista da retórica liberal segue no sentido de encobrir este comprometimento inevitável.
Essa eleição do abstracionismo, pela modernidade, e sua vitória no trato das realidades concretas (na verdade para anulá-las) é o que possibilita o afastamento tranqüilo e sem peso na consciência, por parte dos indivíduos e das instituições liberais, destas realidades sofridas. E isso graças ao estabelecimento da retórica liberal que se pretende baseada em método científico sempre debruçado sobre objetos quantificáveis, passiveis de quantificação, portanto, dominados. Nesse sentido, foi a adoção da metafísica do matematismo e do método quantitativo da física moderna como modelos, por um lado, o que possibilitou aos ideólogos liberais a elaboração e manutenção de um ardil pelo qual conseguem tanto situar o locus dos seus problemas, sempre em outro lugar que o da pessoa concreta, quanto isentar-se da culpa pelas mazelas que o seu sistema caduco tem causado aos seres humanos que vivem sob seu domínio. Eis o resultado ético concreto do neutralismo e objetivismo do racionalismo ocidental, que embala toda família liberal: o cientificismo, o pragmatismo, o utilitarismo e o racionalismo.    

O liberalismo e a experiência religiosa
Essa tara e fuga abstracionista do liberalismo deixa seus rastros em tudo que toca. Vemo-la já estender seus tentáculos castradores até na esfera da religião. Como se sabe, uma experiência caracteristicamente íntima e concreta da humanidade; arraigada na antropologia humana.
Já no século XVIII, a partir da imbricada relação que a ideologia liberal, no seu nascedouro, mantém com o deísmo e sua noção do deus relojoeiro, em nome de uma falsa defesa da imanência, nega a experiência fundamentalmente concreta da fé em vista da defesa de uma metafísica do deus distante, indiferente e despreocupado com o mundo. Um deus à semelhança e imagem da ideologia do individuo liberal indiferente e distante da vida social, da vida em comunidade!
Em muito, por causa do precedente de ligação ideológica aberto por causa da aproximação ocorrida na história de fundação do individualismo burguês moderno, que fundou a sociedade ocidental, com a Reforma Protestante, vemos essa mesma tara abstracionista também se manter na estranha relação do liberalismo com a espiritualidade protestante ao longo da história da implementação da ideologia liberal no Ocidente. E muito mais fortemente em sua quase antonomásia com o protestantismo estadunidense[28] pela manutenção de certa interpretação tipicamente norte-americana de cunho conservador e fundamentalista que entende a predestinação calvinista como fatalismo teológico metafísico.[29]
Assim, a partir dessas indicações, vemos que o concreto e o real no liberalismo não têm voz. Pois estão marcados e condicionados previamente pelos seus construtos teóricos que dão, ao ideólogo liberal, a sensação de conforto, pela posse e domínio de uma realidade que se lhe apresenta sempre cativa e muda. É isso o que propicia o estado de graça e o ar debochado de superioridade intelectual do liberal típico no trato das questões do mundo da vida: do sofrimento do próximo, da injustiça social, da violência social, do desemprego, dos desastres naturais etc. O liberal típico considera estar tratando da realidade concreta quando, na verdade, está inserido num movimento de autofagia de suas próprias idéias. O liberal típico é um prisioneiro de si mesmo.
A posse dessa tara abstracionista propicia ao liberal típico uma justificação prévia e um apaziguamento da consciência em relação a toda injustiça reinante, cuja “explicação” – justificação –, pela teoria geral que ele adota, lhe basta como resposta suficiente. Assim, para o liberal típico, as ações de comprometimento social devem ser deixadas para o âmbito da filantropia departamental e ao discurso religioso moralista individual, caritativo e meramente edificante. Já que a “religião” deve servir apenas como muleta e amparo moralizante ao esquema social decadente imposto pela ideologia liberal. Como vemos, o discurso religioso perde sua especificidade na filantropia departamental e se torna cativo. Quer dizer, ação de comprometimento social que, na verdade, não implica nem participação ideologicamente consciente e de fato do indivíduo, nem responsabilidade de fato e nem comprometimento de fato. Dimensões estas, por outro lado, características de um regime democrático inclusivo e participativo de inspiração personalista. Contra uma sociedade democrática inclusiva e participativa, pautada na consciência crítica e na responsabilidade cidadã, o que temos, então, é o império do anonimato liberal, o seu mundo do “se”!

O caráter volitivo do liberalismo sobre o mundo do consumo
Nessa situação do liberal típico, todavia, não se consegue ocultar o aspecto volitivo que está na base das “doutrinas” liberais ditas objetivas. Volitivo não só no sentido que o liberalismo dá à fundamentação do Contrato Social como ato de vontade do indivíduo isolado que decide se associar. Mas como implicando, na perspectiva do personalismo, a adoção livre de determinados valores[30], não ditos ou camuflados, por parte do liberal típico que quer seu discurso como a expressão objetiva da realidade das coisas, como o “bom senso”. Por exemplo: o utilitarismo, o pragmatismo, o individualismo, a competição, o conforto, a adaptação, a instalação etc. Sempre com estes em detrimento de outros mais fundamentais e menos epidérmicos.[31] Todavia, estes pseudo-valores do mundo liberal, os quais têm prevalecido na civilização sobre a qual a burguesia tomou para si a função de inauguradora, já não conseguem mais ocultar sua inadequação num mundo de recursos finitos que não suporta o modelo de produção-consumo capitalista, que se fundamenta sobre eles e que é fora dos eixos das necessidades humanas reais.
Exemplo: pensemos no discurso universalista liberal burguês. Mais visível no antigo liberalismo, pois mais corajoso e empenhado nos seus inícios do que o atual neo-liberalismo. Que é menos comedido em seu desaforo social. E o pensemos em relação a um item simples e que representa bem o seu espírito: a produção e distribuição. E isso com margem mínima de lucro por unidade. Suponhamos a possível aquisição de geladeiras, se não pelos sete bilhões de habitantes do mundo, ao menos por cinco bilhões. O resultado a que a civilização chegaria não seria o de um colapso total? Isso tomando em consideração o nexo causal que implicaria tal cadeia produtiva ligado à variedade de insumos necessários para a produção e uso desse item? Pois, por sua vez, dependeria de fontes e recursos que comportam limitação não só quantitativa: o que a retórica liberal buscaria resolver pela reposição do problema da produção. Mas qualitativa, quer dizer: a impossibilidade da continuação das formas de vida no âmbito do funcionamento do eco-sistema finito, tal qual conhecemos, com a permanência de tal modelo autodestrutivo.
A partir dessa simples constatação, podemos ver que o liberalismo, mesmo quanto a um item, o do consumo facilitado, que alardeia aos quatro cantos da Terra como o trunfo do sistema econômico que defende, não consegue ocultar a mentira do falso universalismo que ecoa por trás de suas posições de bom-senso. Vemos claramente que a verdade da crítica do capitalismo à economia planificada, como não resolvendo a contento um aspecto importante da psique humana no âmbito do econômico (a tendência à aquisição livre de bens de consumo) fundamenta-se sobre a mentira do sonho de universalização do seu ideal de consumo. Que significa, por sua vez, como podemos ver, a total destruição da vida no planeta Terra.
É claro que este argumento não demove o liberal típico do seu otimismo para com o seu esquema mental e doutrinário. O liberal típico é autofágico de suas próprias idéias e doutrinas, e não quer nenhuma relação com mundo concreto da vida. Ele é um otimista inveterado de sua doutrina, e um pessimista ativo (fascista) em relação à pessoa concreta. Com a ideologia liberal estamos, na verdade, tratando do mesmo problema de quando tratamos dos coletivismos. Quer dizer: de uma religião laica. Em outras palavras, de uma pseudo-religião. E não nos surpreenderíamos se surgisse algum liberal propondo, para salvar a pureza de sua doutrina, a reforma de todo eco-sistema como sendo o que realmente está errado, e não o seu racionalismo.
Todavia, a cada vez mais visível incompetência do liberalismo em tratar dos problemas que ele mesmo cria tem forçado, atualmente, a retórica liberal a se diluir estrategicamente em diversos matizes filosóficos: eis o seu relativismo fácil sempre em busca de conciliação. Mas estes matizes não conseguem ocultar a mesma e irmanada inspiração de fundo valorativa. Em outras palavras, não conseguem negar uma comum consangüinidade ideológica.

O problema geral da verdade e o relativismo liberal
O personalismo se inscreve na fileira dos que querem participar e contribuir para o esclarecimento da “verdade”, no âmbito do que nós poderíamos denominar “o problema geral da verdade”. E esta, para o personalismo, é tida como um “centro de apelo”, antes que uma posse, antes que uma substância. Ela exige uma postura, por parte dos que a buscam[32], que faça justiça a sua dignidade milenar. Ou seja, ao seu sentido de construção, de cooperação e de inacabamento que pode ser seguido e percebido ao longo da história da humanidade. Mounier, citando Péguy, de quem adquiriu o gosto pela verdade no burilamento das pequenas verdades, diz:

Nós não corremos atrás do inédito; não corremos atrás do desconhecido; não corremos atrás do extraordinário: nós procuramos o justo e o conveniente ... Mas quando o bizarro é justo, verdadeiro, conveniente e harmonioso, acolho o bizarro e eu mesmo o investigo; e quando é o conhecido, o banal, que é justo, verdadeiro, conveniente e harmonioso, eu acolho este banal de que não tinha saído à procura.” A paixão da verdade e a paixão da justiça se unem nele (Péguy) em uma mesma fidelidade da qual toda sua obra palpita. Voluntariamente cego às exigências de partido e às obrigações de circunstâncias, ele impõe aos Cahiers o seguinte programa: “Dizer a verdade, toda verdade, nada mais que a verdade; dizer bestamente a verdade besta, fastidiosamente, a verdade fastidiosa, tristemente, a verdade triste.” Não procurar a paz de sua consciência na abstenção do silêncio: “Quem não grita a verdade, quando sabe a verdade, se faz cúmplice dos mentirosos e falsários.[33] 

Ora, a maneira como o liberalismo vê a verdade, se é que a vê, está nos antípodas da compreensão personalista:

Para certo liberalismo, ao contrário, ela (a verdade) não é o centro de apelo, mas somente o ponto de vista relativo em constante evolução. A via do espírito, para ele, é a de jamais se doar, jamais concluir, pois toda conclusão seria uma suspensão da inteligência. Contanto que elas sejam sinceras, todas as doutrinas são válidas: quanto mais elas se misturarem, mais neutralizam, umas nas outras, uma tentativa de dogmatizar. O ecletismo, desde então, é a regra de colaboração, que é a de não ter regra.[34]

Não devemos nos iludir. Esta atitude relativista, para ser em seguida conciliadora, essa velharia eclética assumida pela ideologia liberal, parece soar muito “atual”, muito de “vanguarda” nos círculos universitários em que essa ideologia domina. Afinal, o ecletismo foi sempre uma filosofia de professores. Assim, certo relativismo fácil tem conquistado seu lugar e tocado um bom número de consciências como o único antídoto às chamadas “grandes ideologias falidas”: menos, é claro, a do liberalismo. A todas as “grandes narrativas”: menos é claro, a meta narrativa que a ideologia liberal mantém por trás de sua fragmentação, de seu relativismo fácil jogado sobre a realidade que faz a parte fixa do seu esquema explicativo antropológico e cosmológico.
A estas consciências parece impossível outro caminho que o da ideologia liberal porque já têm, como pressuposto do qual não pretendem abrir mão, os pseudo valores liberais estabelecidos socialmente como costume. Assim, entende-se a queda fatal para o locus da abstração e logicismo, sob e dentro dos quais, as instituições liberais permitem unicamente que se jogue o jogo de sua tagarelice. A observação de Mounier quanto ao ecletismo do liberalismo vai nesse sentido: ele consegue neutralizar, num só golpe, as verdades que se apresentam no jogo que ele permite ser jogado dentro de uma lógica interna previamente comprometida com sua metafísica do individualismo reivindicativo expressão de bom senso.
Assim, o liberalismo desviriliza as verdades de seu apelo último que seguem no sentido da pessoa, salvando a sua metafísica de fundo e tranqüilizando as consciências cooptadas pelo sentimento de trabalho realizado pela pura tagarelice. E perturbando as inquietas que, ou por falta de opção, ou por medo, ou por covardia, ou por vontade de instalação, adornam-se com ares de vanguarda na manutenção de um relativismo fácil e não comprometedor: indiferente. Este, que julgam neutro, para Mounier é outra das formas de uma mesma intenção de justificação e instalação geral na mentira. Para o diretor de Esprit:

O culto da verdade é o mais escrupuloso dos cultos. Ela é preciosa em si, porque é divina. Só uma alma grosseira se satisfaz em distinguir as grandes verdades, “as verdades explosivas, gloriosas”, que querem a defesa, da miúda bagatela negligenciável das pequenas verdades. São as pequenas mentiras e as pequenas injustiças, lentamente infiltradas, que apodrecem um país e necessitam de uma revolução. “Nós não devemos manter uma preferência, um gosto malsão pela verdade cirúrgica, devemos, pelo contrário, tratar de escapar daí modestamente pela prática regular da verdade higiênica.”[35]

A relacionalidade[36] inerente à dialética, para Mounier, não implica a dissolução de toda verdade prática – política –, mas um ajustamento mais preciso do espírito de rigor.[37] Portanto, o personalismo não poderia simplesmente aceitar, sem mais, as regras do jogo propostas por um modelo arqueado de velhice, que é o do liberalismo, e que ainda se sente o supra-sumo da sofisticação política como neoliberalismo, cuja inspiração se encontra no velho ceticismo grego e no ecletismo romano.[38] Não. O personalismo de Mounier não poderia simplesmente aceitar o lengalenga da abstração da “mão invisível” e da “auto-regulação” do seu sistema propositalmente afirmado como impessoal somente como álibi para a manutenção do seu regime – expressamente pessoal – de irresponsabilidade. Isso seria, para Mounier, a negação da sua principal inspiração: a pessoa em sua dignidade concreta e em seu movimento de personalização. Movimento cuja expressão pode ser entrevista na cultura. Quer dizer, nas formas em que a sociedade tem tomado graças à assunção livre dos valores reais de base do universo da pessoa que pulsa no sentido da afirmação do princípio democrático inclusivo e participativo.
Estes valores são, em seu sentido próprio, a expressão mesma da emergência da pessoa na história. Emergência que, por causa do estancamento deste seu élan natural de afirmação da vida – a pessoa, segundo Mounier, é um ser para a vida e não para a morte – é obrigada a se tornar, em determinado momento, movimento de insurgência da pessoa na história,[39] ou seja, revolução. E esta, em vista da realização da experiência que o personalismo de Mounier e sua equipe em Esprit sentiram dede 1936 como sua vocação própria: apelar ao ser humano contemporâneo que a realizasse. Se é que, como diz Ricoeur, “o personalismo deva então morrer para que volte a pessoa”.[40]
Vemos assim o quanto o abstracionismo liberal mantém em sua gênese o encobrimento de uma situação real sempre latente de um estado de violência. É que a metafísica liberal é sempre pessimista em relação ao seu ente de razão abstrato denominado indivíduo. Mas após a garantida da estabilidade de suas instituições, a ideologia liberal se tornou otimista em relação às suas abstratas leis naturais.  
Todavia, devemos pontuar que há um otimismo do liberalismo em relação ao seu indivíduo. Este se dá no exato ponto em que idealmente o indivíduo liberal assina o Contrato Social. Ou seja, no exato ponto em que o indivíduo liberal dá o start ao esquema social liberal. Todavia, logo depois desse gostinho de sujeito que o liberalismo permite que o seu indivíduo tenha ao assinar o dito Contrato, ele o reduz a objeto. O mesmo que a sua pseudo-democracia para poucos parlamentar representativa faz ao seu indivíduo após o dia do sufrágio. No liberalismo, o indivíduo começa como sujeito e termina como objeto.[41]
É nesse sentido que o personalismo de Mounier vai desconfiar de uma crítica à filosofia do sujeito que permaneça só no âmbito da gnosiologia sem ter um alcance na ética, na política. Para Mounier esta permanecerá como uma meia-crítica, um meio caminho, uma meia-verdade. O que não deixa de apontar ao nosso filósofo certos compromissos de fundo e internos a essas mesmas críticas como ainda mantendo características fundamentais da “filosofia do sujeito” que dizem criticar.

O mundo das relações objetivas e do determinismo, o mundo da ciência positiva, é, por sua vez, o mais impessoal, o mais desumano e o mais distante que há da existência. A pessoa não encontra aí lugar porque, na perspectiva que esse mundo mantém da realidade, ele não tem em nenhuma conta uma nova dimensão que a pessoa introduz no mundo: a da liberdade. Nós falamos aqui da liberdade espiritual. É necessário distingui-la cuidadosamente da liberdade do liberalismo burguês.[42]


A violencia e a ordem
Como nota Candide Moix: “Há estados violentos como há atos violentos. Mas como os primeiros são menos visíveis, nem todos têm a consciência da sua existência.”[43] A propósito, escreve Mounier: “Há pessoas que têm e pessoas que não têm consciência de que vivemos num mundo amplamente bárbaro: quase todos mal-entendidos vêm daí.”[44]
A preocupação do liberalismo com o que chama de ordem, o leva facilmente à utilização da força, do poder de polícia do Estado para a contenção do que ele rotula previamente, porque resistente e fora da sua ordem, como desordem social. Este poder de polícia, para o liberalismo dominante, diferentemente de outras atribuições que ele considera extrapolativas no seu Estado dito mínimo (para o povo e máximo para minoria endinheirada), não deve ser reduzido, em função da manutenção de sua ordem, em nada, muito pelo contrário. O Estado liberal, na verdade, deve manter o poder da utilização da força até como sua atribuição mais fundamental.[45] “O reflexo do liberal diante do perigo é fazer o fascismo.”[46] A chamada ordem liberal, então, oculta um dado mais fundamental:

Há mais estados violentos do que eventos violentos. Um velho hábito da tranqüilidade burguesa nos faz crer na ordem, cada vez que o repouso se estabelece. A questão é saber se o mundo não é antes feito de tal sorte que o repouso aí seja sempre [expressão de] uma desordem [ingênita].[47]


A percepção da existência e diferença necessária entre estados de violência e eventos violentos por parte de Mounier, como sendo o primeiro o mais profundo, nos remete a uma crítica fundamental ao: 1. estado de direito inaugurado no século XVII pelos contratualistas; mas também, 2. ao modo como se o mantém hoje em dia.
Quanto a (1), uma crítica assim consideraria o caráter axiológico e estruturalmente violento do estado moderno, cuja fundação se trataria justamente de uma declaração que oculta a intenção da manutenção de um estado de violência em nome da contenção de eventos violentos. Na base desta atitude, tomada na mais tranqüila das cauterizações de consciência jamais vista na história humana[48], pois se encontra sempre psicológica e previamente justificada em seus motivos, está a manutenção da ordem liberal, pela qual todos os esforços são poucos. Tudo isso para, na verdade, subsumir tudo: indivíduo, sociedade, ética, religião, política, arte, literatura, filosofia etc., sempre dentro de sua lógica interna, e na defesa da sua filha predileta, Alfa e Ômega das suas inspirações e dos seus sonhos, a verdadeira menina dos olhos da ideologia liberal: a propriedade.

Quando se vê essas pessoas tanto mais apaixonadamente defender o direito de propriedade, e se tornarem professoras de virtude pela defesa de seus interesses, é que elas têm menos preocupação das realidades e dos deveres da posse. [grifo nosso] No mesmo momento, elas nos oferecem o paradoxo de ver um direito de uso reivindicado por aqueles mesmos que são incapazes ou se tornam indignos do uso.[49]

Vemos, então, que o liberalismo confunde propositalmente sua ordem “democrática para poucos” como sendo a última palavra sobre a democracia enquanto tal na ordem político-social humana possível. E é só por causa da ideologia liberal ver a sociedade como seu espelho, e encontrar um costume social “preestabelecido” que confirma isso, que toma essa confusão interesseira culturalmente criada pelo liberalismo como expressão natural das coisas.  É assim que o liberalismo pode, por sua vez, tratar tranqüilamente todos os eventos sociais sob o manto do “natural”, e daí do “científico”, ou seja, da sua “ciência”.
Para o personalismo de Mounier essa situação se explicita muito claramente. Pois a “pessoa” nunca coincidirá com o lugar que o liberalismo deixa ao seu indivíduo. E nem as aspirações da pessoa relacional por vida comunitária coincidirão com o projeto de “democracia liberal”. Se estas noções, a de pessoa e sociedade, não são “definíveis” para o personalismo in perpetuum, no entanto, elas manterão sempre o seu lugar de princípio normativo e de inteligibilidade em seu estatuto real fundante. Trata-se, para o personalismo, diante da instalação liberal, de revolução permanente motivada por um ultrapassamento real baseado em um movimento de transcendimento real (temporal ou histórico) ao dado de fato. Não um movimento do tipo “patinar na esteira aeróbica” que o liberalismo permite aos seus indivíduos.[50]
Contrapondo-se à pseudo-ordem liberal burguesa, Mounier vai utilizar a expressão desordem-estabelecida. E em relação à propriedade, Mounier vai ampliar e antepor, ao uso interesseiro desta pelo liberalismo que faz dela algo como pertencente somente ao âmbito da técnica – questão de técnicos –, o problema do seu uso moral: “Assim se entremesclam, no problema da propriedade, um problema técnico da gestão e um problema moral do uso.”[51] Como é típico do pensamento liberal dividir e separar o ser com base no princípio de conveniência adotado – pragmatismo, utilitarismo, imediatismo etc. –, cujo contraste gritante com seus princípios de rigor racionalistas não é suficiente para impedir essa sua impostura – eis aqui o princípio volitivo, quer dizer, de má-vontade, que está na base do seu suposto racionalismo da clareza e da distinção sempre maquiado de bom-senso: o problema técnico vai ser mantido interesseiramente pelo liberalismo como “para sempre” uma questão independente da moral.
Mas isso não é novo, já é claramente percebido no maior expoente da ideologia liberal no Ocidente, John Locke. Enquanto em seus Dois tratados sobre o governo[52] Locke se preocupa com a fundamentação da sociedade contratual individualista, a moral se depreende, em caráter a posteriori, da constituição tanto de sua epistemologia empirista[53], que nos apresenta já a visão essencialmente instrumental da razão[54], quanto do que decorre das noções de liberdade e igualdade que, na constituição do seu Contrato Social, aparecem totalmente comprometidas e dependentes da visão juridista que fundamenta a visão social de Locke. Nela, a liberdade é a que é concedida pela lei – liberdade diante da Lei – e a igualdade é uma atribuição, uma dotação extrínseca à pessoa, ligada à condição do indivíduo social do contrato que deve ficar feliz por desfrutar desta igualdade concedida, segundo a retórica liberal, e não daquela insegura que possuía no estado de natureza.
Todavia, para o personalismo, será esta liberdade insegura, mantida pelo liberalismo como pertencente aos tempos idos do estado de natureza, que, na verdade, fora da mentira da retórica liberal, constituirá a verdadeira idéia reguladora da ideologia social liberal. A essa hiperbólica da insegurança, o liberalismo vai propor, pelo seu bom-senso de costume, a que a sociedade opte pela insegurança menos hiperbólica possível que, diga-se de passagem, é justamente a que se confunde com o esquema social liberal. A ideologia liberal, desde o seu nascedouro, cria dificuldades para vender facilidades.
Para Locke, o que importa, na verdade, depois de comprovado o estado de graça da consecução da sociedade contratual liberal, é a manutenção da ordem. Esta, coroada, desde então, e de maneira sempre positiva, como legal. Pois é ela que garante a posse e o usufruto da propriedade aos poucos verdadeiros cidadãos que a possuem, os sujeitos, ou verdadeiros cidadãos da democracia excludente e elitista liberal.  Assim, no esquema social de Locke, a idéia reguladora será aquela de um estado de natureza latente. Quer dizer, de uma guerra de todos contra todos. Enquanto a posse e vontade de usufruto da propriedade privada será definitivamente o verdadeiro movente, o verdadeiro start da vida social, segundo Locke.[55]
Nesse sentido, tanto a liberdade quanto a igualdade, sempre a posteriori, serão, a partir de então, mais explicitamente neste momento fundante em Locke[56], e mais camufladamente no neoliberalismo atual, ditadas segundo as atribuições que os únicos capacitados para tal – os proprietários – se disporem a conferir-lhes pelo poder abstrato de um meio que o liberalismo moderno transformou em fim: o dinheiro.

O liberalismo pretende fundamentar-se na satisfação das necessidades. De fato, ele deixa geralmente a estimativa destas ao acaso, regula-se muito menos pelas necessidades reais do que de acordo com a sua expressão monetária, que as falseia, e de modo algum se integra a respeito do volume ocupado pelas necessidades econômicas no conjunto das necessidades humanas.[57]

Aos olhos de Mounier, três são as obras próprias do dinheiro: o rico, o pequeno burguês e o miserável.[58]
Quanto a (2), um exemplo recente ligado à mídia brasileira pode nos ajudar a lançar alguma luz. A percepção da existência e diferença necessária entre estados de violência e eventos violentos, distinção fundamental que Emmanuel Mounier propõe, colocaria em questão a suposta neutralidade dos meios de comunicação. Como se mantendo acima de qualquer suspeita quanto a qualquer tipo de relação direta entre a geração de violência na sociedade e suas veiculações midiáticas. Isso, notadamente, em países do terceiro mundo, como o Brasil, por parte da televisão.
Em relação a isso, estudos quantitativos atuais, tomados como última palavra em seu caráter “sociológico estatístico científico”, apresentam o que definem como impossibilidade de se estabelecer uma relação direta de causalidade entre a violência social e a veiculação televisa que se possa apontar como tal.[59] (Mas e uma relação remota?) Ora, esta tese, que se ressente da ontologia liberal, que vê a realidade como esfacelada, dividida e estanque em seu ser e funcionamento, privilegia o estabelecimento de um tipo de casualidade “científica” que, como vimos, convenientemente a torna melhor para o exercício do seu domínio. Quem segue o modo da separação da ontologia liberal nunca conseguirá colocar as coisas sob o ponto de vista da relação, o ponto de vista relacional.
Por outro lado, mesmo do ponto de vista prático, esta tese da neutralidade dos meios de comunicação em relação à produção da violência é contestada pelo próprio apelo e promessa da produção televisa aos seus clientes anunciantes. A mídia, em suas ações, crê e age exatamente motivada por uma crença contrária a das “pesquisas científicas” que defendem a neutralidade dos meios de comunicação. Da mesma forma, os seus anunciantes e o Estado têm a mesma crença da mídia: para todos estes, a televisão tem o poder de orientar, senão ainda absolutamente – eis o sonho de todo tirano, de todo totalitário e a ideia reguladora mesma da mídia –, ao menos na quantia exata que, numa sociedade acostumada a validar as coisas e os eventos ao modo liberal pelo cômputo, gere a opinião majoritária.
É em nome dessa crença comum que as redes de televisão geram os seus lucros enormes em quantia de dinheiro que os anunciantes que pagam embutem, com a total aprovação e leniência governamental, que também participa do bolo, nas mercadorias veiculadas. Com isso, fechando o círculo do complô dos famintos por dinheiro em total detrimento do verdadeiro sentido humano do consumo e comunicação social. Sociedade da qual vivem como parasitas; existindo como corpos estranhos ao organismo social.
Segundo a perspectiva personalista, essa situação ontológica mantida por estes setores, situação que desregula todo sentido do social em função de sua ganância por dinheiro, torna o organismo social, despossuído de suas prerrogativas e fora do sentido do seu verdadeiro destino, “doente”. E de um mal que os mesmos que parasitam a vida social alimentam e fazem a manutenção sem, todavia, deixar com que o corpo social expire de vez. Esta é a definição e o destino das sociedades que adotam para si a política neoliberal: uma morte lenta, mas certa e eficaz.

Conclusão
Na se deve confundir personalismo e liberalismo. Ou seja, não se deve confundir o núcleo diretor do personalismo que é a pessoa relacional e concreta, núcleo não inventariável, único doador e aferidor do sentido possível, com o ente de razão chamado indivíduo do liberalismo. Pois este, tomado em suas manifestações sociais e particulares, dentro do espaço que lhe é permito na lógica abrangente e retentora da ideologia liberal, sempre acaba cativo e submisso à objetificação e subsunção taxionômica de si sob o sentido redutor da apreensão racional dos seus dados de exposição.
Sobre um campo menos estreito, muitos tentam cobrir com o personalismo uma defesa do liberalismo. Dos valores que ele afirma: pessoa, liberdade, iniciativa, os liberais fazem um bloco espiritual “anti-marxista” onde as advertências pertinentes se misturam, sem distinção, a reflexos de defesa social. Koestler é, nos dias de hoje, e até mesmo contra a sua vontade, o ponto de união desta confusão. Ela altera duplamente a inspiração personalista. Por um lado, ela negligencia todo o setor dos valores e das realidades coletivas. Por outro, ela fixa os valores postos por nós em evidência no sentido e no estatuto particulares que eles têm recebido na época liberal, pois tentam fazer passar como absolutas estas formações transitórias. A liberdade dos direitos do homem e do século XX, este direito incondicional de ir e vir, de falar, de escrever, de fazer o comércio de dinheiro e do Estado, traduz a situação do liberalismo nascente no momento mesmo em que, diante de um campo de expansão praticamente ilimitada, ele falha em dar ao interesse privado o máximo de possibilidades[60]: o tempo do mundo finito e pleno não permite hoje a mesma facilidade e a mesma anarquia de movimento; a organização, que ele evoca urgentemente, entranha uma limitação fatal às liberdades tradicionais. ... ligada ao liberalismo, sua dominante [a da liberdade] é fortemente egocêntrica, ela maltrata o movimento essencial de nossa humanidade que não é somente a preocupação da coexistência na limitação recíproca das fantasias, mas colaboração, devotamento, comunidade de destino, sacrifício à ordem ou ao futuro comum. [Grifo nosso] De fato, ela [a dominante liberal da liberdade] não tem, enfim, para uma ampla parte, senão uma liberdade declarativa e formal, que é recusada à grande maioria. Assim, pois, o liberalismo tem podido, a um momento da história, contra a máquina esclerosada da monarquia decadente, se identificar com o destino dos valores pessoais. Todavia, continuar hoje em dia a afirmar essa identificação, no momento em que o liberalismo os compromete de maneira totalmente evidente, é ligar a vida à morte. Não se trata, desde então, de defender a liberdade – caduca – do liberalismo, mas de dirigir a permanente vocação do ser humano à liberdade para um estatuto novo adaptado às condições que o século XX[61] lhe oferece. ... estas novas situações são, por outro lado, enriquecedoras, pois elas vão nos fazer reencontrar uma liberdade viva, experimentada em um esforço de libertação, antes que nas facilidades herdadas; uma liberdade dramática, conquistada e disputada contra suas próprias obras, uma liberdade devotada, onde o sentido do trabalho e da salvação em comum, com os sacrifícios necessários do indivíduo à comunidade, e das comodidades presentes aos dias seguintes melhores, tomarão a frente da reivindicação egocêntrica e imediata.[62]


BIBLIOGRAFIA

  1. Mounier, Emmanuel – Œuvres; 4 Vols – Éditions du Seuil, Paris, 1961.

Vol. 1:
-          La Pensée de Charles Péguy, 1931, pp. 7 ss.
-          Révolution Personnaliste et Communautaire, 1932-1935, pp. 129 ss.
-          De la Propriété Capitaliste a la Propriété Humaine, 1934-1939, pp.421 ss.
-          Manifeste au Service du Personnalisme, 1936, pp. 483 ss.
-          Anarchie et Personnalisme, 1937, pp. 653 ss.
-          Personnalisme et Christianisme, 1939, pp. 729 ss..
-          Les Chrétiens devant le Problème de la Paix, 1939, pp. 785 ss.
-          Annexes: Appendices de Révolution personnaliste et commnuitaire, pp. 841 ss.

     Vol. 2:
-          Traité du Carctère, 1943-1944, lançado pela Éditions du Seuil em 1947.

      Vol. 3:
-          L’Affrontment Chrétien, 1945, pp. 9 ss.
-          Introduction aux Existentialismes, 1947, pp. 69 ss.
-          Qu’est-ce que le Personnalisme?, 1947, pp. 179 ss.
-          L’Éveil de l’Afrique Noire, 1947, pp. 249 ss.
-          La Petite Peur du XX Siecle, 1946-1948, pp. 341 ss.; em Neuchâtel, La Baconnière, e em Paris, Éditions du Seuil, em 1949.
-          Le Personnalisme, 1949, pp. 429 ss.
-          Feu la Chrétienté, 1937 a 1949, pp 529 ss.; pela Editions du Suil, em 1950.
  
  Vol. 4:
-          Les Certitudes Difficiles, de 1933 a 1950, pp. 11 ss.; pela Éditions du Seuil, em 1951.
-          L’Espoir des Desesperes, pp. 285 ss.; pela Éditions du Seuil em 1953.
-          Mounier et Sa Génération, (CorrespondanceEntretiens), pp. 409 ss.; “Esprit”, em1954.


OUTRAS OBRAS CITADAS

- Textos lançados em Esprit de André Ulmann: “La vocation de l’économie” (novembro de 1932), que é a de estar a serviço do ser humano e não o contrário; e em abril de 1933, ele apresenta, nessa mesma perspectiva, uma “Declaration des droits de l’homme économique”; ao se tornar rapidamente secretário da revista Esprit, torna-se animador de um grupo crítico da situação econômico-social e participa do número especial “L’argent, misère du riche, misère du pauvre” (janeiro de 1936) com um longo estudo crítico sobre a “L’émigration, problème révolutionnaire”. Na coleção “Esprit”, é devido a ele o lançamento do segundo livro, depois do de Mounier, Rèvolution personnnalista et communautaire, que se intitula Police, le 4ª  pouvoir (Paris, Aubier-Montaigne, 1935). Cf. Mounier, Paulette, “resenha” do livro André Ulmann ou le Juste Combat, Paris, Sté des Ed. Internationales, 1982, de Michel Goildschmidt et Suzanne Tenand-Ulmann, in Bulletin des amis d’Emmanuel Mounier, Numéro 60, octobre 1983, p. 18.     

- Aristóteles, Metafísica, col. Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1978.

- Emmanuel Mounier, Actes du Colloque Tenu à l’UNESCO – [Vol. I (2003) e II (2006)] – Sous la présidence de Paul Ricoeur et Jacques Delors; Edite par Guy Coq – Président de l’Association des Amis d’Emmanuel Mounier, Parole et Silence, Paris.

- Collections “Esprit”: Emmanuel Mounier – 1905-1950; Aux Editions du Seuil (Numéro Spécial d’Esprit, Décembre, 1950. org. par Albert Béguin.) Em Memória – Vários Artigos.

- Great Books of the Western World; Nº 35; Locke, John, An Essay Concerning Human Understanding, Willian Benton, Publisher, ENCYCLOPÆDIA BRITANICA, INC - 1978. Em Português, pela Coleção: Os Pensadores, Locke, John, Ensaio Acerca do Entendimento Humano, Abril Cultural, São Paulo, Iº edição, 1973.

- Hirschman, Albert: O. As paixões e os interesses – Argumentos políticos para o capitalismo antes de seu triunfo, Paz e Terra, São Paulo, 2000.  

- Hobbes, Thomas: LeviatãOu Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil, col. Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1979.

- Houaiss: Dicionário da Língua Portuguesa, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001. Caldas Aulete, (Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, Vol. III, Editora Delta, 3a edição, R. J., 1983.

- Lacroix, Jean: O personalismo como anti-ideologia, Coleção Substância, Rés Editora, Porto, s/d. 

- Laski, Harold J.: O liberalismo europeu, Editora Mestre Jou, São Paulo, 1973.

- Locke, John: O segundo ensaio sobre o governo – um ensaio referente à verdadeira origem, extensão e objetivo do governo civil, in Dois tratados sobre o governo, Martins Fontes, São Paulo, 1998. (pp. 777 ss.)

- Melchiorre, Virgilio: Il método di Mounier ed altri saggi, Feltrinelli Editore, Milano, 1960.

- Garandeau, Mikaël: Le libéralisme, Textes choisis & presentes par Mikaël Garandeau, Falammerion, Paris, 1998.

- Moix, Candide: O pensamento de Emmanuel Mounier, Paz e Terra, Rio de janeiro, 1968.

- Mounier, Emmnauel: “Appel a um rassemblement pour une démocratie personnaliste”, in Bulletin des amies d’Emmanuel Mounier, Numéro 60, Octobre, 1983, p. 9.

__________________: Le pact atlantique, de maio de 1949, escrito com a colaboração política de Paul Fraisse e Jean-Marie Domenach, in Les certitudes dificiles, Oeuvres IV, coletânea de textos de 1933 a 1950, p. 217.
    
- René Habachi Borne, Étienne: Les Nouveaux Inquisiteurs, Paris, “Le pohilosophie”, 1983, pp. 172 ss.; in Bulletin des amis d’Emmanuel Mounier, Numéro 60, Octobre 1983.

- Ricoeur, Paul: “Morre o personalismo e volta a pessoa”, in A Região dos Filósofos, col. Leitura 2, Editora Loyola, São Paulo, 1996.

- ____________: “Emmanuel Mounier: une philosophie personaliste”, in Histoire et Vérité, collection Esprit/Seuil, 1955.

-  Rougemont, Denis de: Penser avec les mains, Gallimard, 1972.

-  Tillich, Paul: Systematic Theology, 3 vols., The University of Chicago Press, 1957.    
                  


[1] Bacharel, Licenciado, Mestre e Doutor em Filosofia pela USP. Teólogo pela Faculdade Teológica Batista de SP. Pedagogo pela FALC. Tradutor de mais trinta obras nas áreas de: Ciências da Religião, Filosofia, Teologia e Literatura. É também músico profissional: Guitarrista – Violonista. É palestrante e possui artigos científicos nas áreas de Filosofia e Teologia em coletâneas. Atualmente, com um livro de sua autoria na área de filosofia contemporânea no prelo: Da Costa, Daniel: O cristianismo ateu – A filosofia radicalizante e o cristianismo de Pierre Thévenaz, Fonte Editorial, São Paulo, 2018.       
[2] Manifeste au service du personnalisme, Oeuvres I, p. 533.
[3] A compreensão do ato de engajamento, segundo a perspectiva personalista, é devida à reflexão de Paul Louis Landsberg, que delineou e precisou, em relação a isso, a própria posição de Mounier e do movimento Esprit.    
[4] Révolution persoannaliste et comunautaire, Oeuvres I, 1935, p. 186. 
[5] Isso fica mais claro quando entendemos a crítica que Emmanuel Mounier inicia como crítica do hábito, e não dos costumes, pela qual o racionalismo foi sempre tão cioso. Para isso, também remetemos ao interessante ensaio de Hirschman, Albert O. As paixões e os interesses – Argumentos políticos para o capitalismo antes de seu triunfo, Paz e Terra, São Paulo, 2000.  
[6] Le personnalisme, Oeuvres III, 1949. p. 458.
[7] Ricoeur, Paul, “Morre o personalismo e volta a pessoa”, in A Região dos Filósofos, col. Leitura 2, Editora Loyola, São Paulo, 1996, p. 155.
[8] Ver: Lacroix, Jean, O personalismo como anti-ideologia, Coleção Substância, Rés Editora, Porto, s/d. 
[9] Ver: Ricoeur, Paul, “Emmanuel Mounier: une philosophie personaliste”, in Histoire et Vérité, collection Esprit/Seuil, 1955, p. 138. Este artigo de Ricoeur se encontra primeiramente lançado como parte desta coletânea mista em homenagem a Mounier no número especial de Esprit de 1950, p. 860, com o título: Une philosphie personnaliste. Há uma tradução em Português da coletânea Histoire et Vérité: Ricouer, Paul, História e Verdade, Forense, Rio de janeiro, s/d.
[10] Ricoeur, A Região dos Filósofos, op. cit., p. 156.
[11] Mounier, Emmnauel, “Appel a um rassemblement pour une démocratie personnaliste”, in Bulletin des amies d’Emmanuel Mounier, Numéro 60, Octobre, 1983, p. 9.
[12] Está aqui, na noção de funcional, a recusa implícita, por parte de Mounier, da metafísica do hierarquismo em termos de relações sociais.   
[13] Révolution personnaliste et communautaire, Ouvres, p. 294.
[14] O que Berdiaeff diz da mentira do comunismo, vale para a mentira do liberalismo. Na verdade, assim como ao lado do problema do mal se deve levar em consideração, para o personalismo, o problema do bem; ao lado do problema geral da verdade, inscreve-se o problema geral da mentira. Cf. Manifeste au service du personnalisme, Oeuvres I, p. 515: “‘O que o comunismo tem de tão temível’, escrevia Berdiaeff no primeiro número de Esprit, ‘é essa combinação de verdade e erro. Não se trata de negar a verdade, mas de destacar o erro.’ Precisemos: o que o comunismo tem de temível é este entrecruzamento de erros radicais com as visões parcialmente justas e incontestavelmente generosas, esta anexação ao erro de causas dolorosas cuja urgência nos oprime.”
[15] Mounier et sa génération, Oeuvres IV, p. 625. 
[16] Révolution personnaliste et communautaire, Oeuvres I, 1932, p. 132. 
[17] Palavra aramaica que permanece na transliteração do Grego Koinê do Novo Testamento em Lc 16.13 como mamonâ / dinheiro. Esta é a única ocorrência no Novo Testamento em que, frente à Divindade, o Dinheiro é colocado como capaz também de propiciar um culto, assim, uma “religião”.        
[18] Révolution … op. cit, p. 133.
[19] Aristóteles, Metafísica, col. Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1978, Livro I, cap. 2, 982b: “Foi, com efeito, pela admiração que os homens, assim hoje como no começo, foram levados a filosofar, sendo primeiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias e progredindo em seguida pouco a pouco até resolverem problemas maiores.”
[20] “... este espanto diante de nossa própria vida...” Révolution ..., op. cit., p. 160.
[21] Révolution ..., op. cit., p. 368.
[22] (Révolution ..., op. cit., p. 386)
[23] Lacroix, Jean, O personalismo como anti-ideologia, Coleção Substância, Editora Rés Ltda, Porto-Portugal, s./d.,  p.129.
[24] No sentido de extravagante e delirante. Ver, Houaiss, Dicionário da Língua Portuguesa, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001. Caldas Aulete, (Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, Vol. III, Editora Delta, 3a edição, R. J., 1983.), apõe a seguinte glosa: “Mirabolante, adj. (depreciativo) espalhafatoso; ridiculamente vistoso; fantástico, extraordinário ...” Usaremos esta palavra, aqui, sempre nesse sentido.      
[25] Tais como: Le libéralisme, textes choisis & presentes par Mikaeël Garandeau, Flammarion, Paris, 1998.
[26] No sentido não filosófico, pejorativo.
[27] Laski, Harold J., O liberalismo europeu, Editora Mestre Jou, São Paulo, 1973, p. 117.
[28] Tirando o que possa haver de excesso no ensaio de Max Weber, (A ética protestante e o espírito do capitalismo, Livraria Pioneira Editora, São Paulo, 1967.) tanto (a) em relação à desconsideração do fenômeno “capitalista” como se dando, é o que parece, já no século XIII entre os comerciantes italianos, portanto, não dependente puramente da ética protestante (Ver: Laski, Harold J., O liberalismo europeu, Editora Mestre Jou, 1973, pp. 22 ss., 25, 67 s.); quanto (b) sua leitura mais próxima de um puritanismo de segunda fase, como era ao que remete na experiência americana, puritanismo já distante do espírito da primeira fase mais de cunho transformador social (Ver: Laski, op. cit., passim.), e (c) seu sentido de reducionismo do calvinismo como proclamador do individualismo. Sobre isto, diz Laski, op. cit., p. 23 s.: “Weber e seus discípulos reconheceram isso [a noção de que o Estado era sempre subserviente a uma idéia de ordem social cristã incompatível com o novo espírito que estava surgindo], de fato; foi na obra de Calvino, e não na de Lutero, que encontraram as principais provas para os seus pontos de vista. Que as idéias de Calvino diferem profundamente das de Lutero é mais do que evidente; mas nada existe nesse poderoso autoritarista que nos autorize a proclamá-lo um protagonista do individualismo. A prova está, sem dúvida, no que fez de Genebra, sua disciplina maciça e tirânica, sua rigorosa subordinação do comportamento comercial ao preceito religioso, seu apaixonado repúdio da liberdade de consciência. A própria essência do calvinismo é a teocracia. Aí, nenhum indivíduo possui uma personalidade particular. Pertence, como Choisy disse, à coletividade de que é uma parcela e essa coletividade, por seu turno, pertence a um corpo de leis de inspiração divina, das quais o indivíduo não pode afastar-se, a não ser à custa de sua salvação. Comparada com esse absolutismo, a famosa carta a Claude de Sachins, em que ele permite a cobrança de juros, pesa muito pouco na balança.” Essa adoção de um coletivista como pai do individualismo, que à primeira vista nos parece um paradoxo que enfraquece um pouco a tese de Weber, não o será, por outro lado,e, como Choisy   quando percebermos que a unidade de sentido deste fenômeno complexo chamado liberalismo, que estamos tentando esboçar aqui a partir da reflexão de Emmanuel Mounier, baseada na sua tara abstracionista, não vai impedir Mikaël Garandeau (Le libéralisme, Textes choisis & presentes par Mikaël Garandeau, Falammerion, Paris, 1998, p. 175.) de elencar ninguém menos que Hegel, na categoria de pensador liberal. Todavia, é Mounier quem vai apontar esta consangüinidade ideológica de fundo, esse DNA, e não Weber, cujas preocupações são outras. n fundose DNA, i apontar esta consaguinidade ideol
[29] Sobre isso, a obra de Paul Tillich, que viveu um bom tempo nos Estados Unidos, vai representar um combate frontal ao fundamentalismo religioso estadunidense. Ver: Tillich, Paul, Systematic Theology, 3 vols., The University of Chicago Press, 1957.                       
[30] Hobbes, Thomas, LeviatãOu Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil, col. Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1979, p. 61 s.: “...Também receber benefícios de um igual ou inferior, desde que haja esperança de retribuição, faz tender para o amor, porque na intenção do beneficiado a obrigação é de ajuda e serviço mútuo. Daí deriva uma emulação para ver quem superará o outro em benefícios, que é a mais nobre e proveitosa competição que é possível, na qual o vencido fica satisfeito com sua vitória, e o outro se vinga admitindo a derrota.” [grifos nossos] É impressionante, mas Hobbes toma como tão certo que os seus pressupostos “são” o espelho da natureza humana enquanto tal que ele não consegue abandonar a linguagem belicosa, da disputa, nem para falar da possibilidade de um ato gratuito de amor desprendido. Por outro lado, Hobbes parece muito mais consciente da possibilidade de refutação do seu racionalismo do que os seus pares mais recentes. Ele sabe muito bem que se colocar a possibilidade da existência de um único ato humano sequer que não implique, refutando a sua teoria geral, nem a beligerância e nem a vontade dominação como fundo movente, os pressupostos sobre os quais constrói o seu sistema ruirão. Isso necessariamente, quer dizer, lógicamente, o forçaria a escrever um outro livro que o Leviatã. Vemos que Hobbes percebe perfeitamente que não é a razão que está em jogo – como diria Lutero: “A grande meretriz.”; boa como serva, mas terrível como senhora –, mas o seu sistema que se vale da racionalidade como álibi para a defesa, na verdade, de uma posição de vontade, de uma crença não passível de aferição racional última. Esta, a posição de vontade que tem prevalecido no Ocidente sobre a gama dos seus pseudo-valores e que “crê” que todo ser humano é sempre menos que um ser humano. A primeira tarefa da tradição liberal será então, a partir de Hobbes e Maquiavel, disseminar ao derredor onde se instala o que pulula no tipo de psiquismo que a fomentou com o que ela, por sua vez, impregna o meio ambiente em que se instala. Mikaeël Garandeau, op. cit., inicia seu livro com John Locke, todavia sabemos o quanto Locke depende de Hobbes. O espírito do absolutismo de Hobbes, que é atomizado, pulverizado e “atenuado”, em sua expressão gritante do monarca único absoluto, pelo indivíduo fundador lockeano do contrato social, não é impedimento para Garandeau, (op. cit., p. 175 ss.), deixar de elencar na fileira do liberalismo, como dissemos, a ninguém menos que Hegel: “Hegel foi particularmente atento às idéias da tradição liberal, malgrado sua denúncia das concepções liberais como “abstrações”, sua crítica do utilitarismo e do contratualismo. Na realidade, ele demonstrou muito mais atenção para com a tradição liberal do que a tradição liberal manifestou a seu respeito. Essa incapacidade em sacar o alcance do sistema de Hegel é uma das principais lacunas do liberalismo moderno.”         
[31] É interessante notar essa manobra já no Leviatã de Hobbes, conforme nota anterior. Como vemos, trata-se ali de algumas linhas, que Hobbes dedica ao tratamento sobre o movente do evento do que chamamos de presente, dom, sobre o qual, passa rapidamente por cima reconhecendo seu caráter antitético ao seu pensamento. Portanto, este seu livro escrito versará sobre o método de contenção – não de extinção – da guerra de todos contra todos, que permanecerá como uma espécie de idéia reguladora da concepção juridista do Estado liberal, no âmbito mesmo da fundação da metafísica do pessimismo do indivíduo do liberalismo. Este, sempre cioso e ruminando a defesa de sua propriedade e a tomada da dos outros, se sentir-se livre da coação da lei.
[32] A verdade para Mounier não se reduz à verdade da lógica, à proposição ou ao conceito, que são apenas veículos necessários e comuns de acesso a ela. A verdade, para o personalismo, é uma adesão explícita e corajosamente afirmada e, ao mesmo tempo, amável e generosamente depositada sobre o altar do fogo purificador que sai dela mesma.    
[33] La Pensée de Charles Péguy, Oeuvres I, 1931, p. 25.
[34] Révolution ..., p. 212.
[35] La penser  de Charles Péguy, Oeuvres I, p. 25. [Em nota, Mounier coloca a referência da citação de Charles Péguy: “Personnalités, III-12, p. 42, (I, 463).”]
[36] Aqui, passim, trataremos da noção de “relativo” – e também da de “absoluto” – a partir da reflexão do diretor de Esprit, a qual será substituída pela noção de “relacionalidade”, muito mais afim com a inspiração do seu personalismo.
[37] Ver o que Mounier diz sobre a dialética marxista em: Feu la chrétienté, Oeuvres III, pp. 617 ss. Já falamos sobre o método de Mounier, cuja filosofia dialógica que propõe o seu personalismo não pode ser confundida com ecletismo porque o sentido do diálogo que inaugura sua filosofia está em ir além da mera “concordância” das verdades parciais. Para isso, ver: Melchiorre, Virgilio, Il método di Mounier ed altri saggi, Feltrinelli Editore, Milano, 1960, p. 7: “Sem subtrair-se à escolha essencial, buscava o além da conciliação, ainda que com o risco de parecer um eclético ou de ser mal entendido pela parte diversa.”    
[38] Obviamente, naquela época, incomparavelmente mais eróticos, mais expressão de uma vida, e não desse atual e decadente apêndice do intelectualismo moribundo que se chama “neoliberalismo”.  
[39] Para Mounier, o que para alguns é pleonasmo (Ver: Actes du Colloque tenu à UNESCO, vol 2, op. cit. passim.), a revolução deve ser personalista e comunitária. Para a noção de “revolução personalista”, ver Révolution ..., op. cit., passim.)
[40] Ricoeur, op. cit, p. 155-162. Esta morte do personalismo já era desejada por Mounier. Sua vontade era a de ter de deixar de falar o óbvio sobre a dignidade da pessoa humana e, após séculos de fracasso da burguesia como mentora da história, ver os ideais personalistas como formas comuns assimiladas na realidade da existência humana, e, assim, não fosse mais obrigado a ficar retomando e enfatizando o óbvio.   
[41] Neste estudo procuro ressaltar sempre as diferenças entre a pessoa e o indivíduo do liberalismo, filosofia da qual Kant é um dos seus maiores pensadores “orgânicos”. Pois no liberalismo, o indivíduo começa como sujeito e termina como objeto. Todavia, acrescento aqui uma precisão. A de que, no liberalismo, o tema do “sujeito” é só um álibi, pois o seu verdadeiro tema não se dá em linha com o da instauração do sujeito da modernidade, como se costuma dizer em história da filosofia, mas em linha com um álibi para a sua melhor e mais ampla vontade de “objetificação”. Portanto, após o seu alardeado “racionalismo”, sua “objetividade”, sua “neutralidade” etc., o liberalismo se mostra como uma filosofia marcada, antes de tudo, pela “volição”, filosofia da vontade de objetificação. Todavia, seguindo a indisposição e repugna personalista em relação a todo suposto início “ab ovo” racionalista e ao chamado “ser de exceção”, não podemos deixar de notar que este “ardil” da modernidade já se encontra em Descartes. Do que Mounier acusa Descartes de ter sido condescendente com essa unilateralização do seu ato de pensamento filosófico, numa espécie de “responsabilidade moral”, levada a cabo pelo racionalismo posterior no e do qual o liberalismo recebe sua seiva de vida. Então, problematizando um pouco a interpretação vigente em história da filosofia, concluímos que o tema, ou melhor, a “vontade” realmente dominante da filosofia moderna não está para com o sujeito, mas para com o domínio do objeto. A filosofia moderna é antes de tudo uma vontade frente aos seus objetos. Isso a torna, do ponto de vista da ética personalista, inusitadamente e contra todas as expectativas, uma “filosofia do objeto”. Por outro lado, o personalismo é clara e declaradamente uma vontade para com o ser humano, um combate por sua renovação. Cf. a nota introdutória do Traité du craractèr, Ouvres II. 
[42] Manifeste aux service du personalisme, Ouvres, p. 523. A “liberdade espiritual” pode ser denominada, a partir do personalismo de Mounier, como “liberdade axiológica”, pois esta é inerente à pessoa como valor, já que a inerência é a grande característica da analiticidade da pessoa.  
[43] Moix, Candide, O pensamento de Emmanuel Mounier, Paz e Terra, Rio de janeiro, 1968, p. 62 s.
[44] Citado por Candide Moix, op. et loc. cit.: Esprit, n. 4, janeiro, 1933, p. 666: “Crônica do mundo bárbaro.” 
[45] Salvo outras informações que desconhecemos, não nos recordamos dos EUA, segundo berço do liberalismo com todo seu discurso democrático, terem sido tão severos e pertinentes, como foram em sua luta contra o comunismo, em relação aos regimes autoritários e totalitários do nazismo, fascismo e da América Latina. Não será também por causa de afinidades profundas entre os regimes? Ou, como diz Mounier: querela de família?  
[46] Rougemont, Denis de, Penser avec les mains, Gallimard, 1972, p. 15. 
[47] Révolution ..., op. cit., p. 138.
[48] Além da chamada globalização, como sinônimo também de universalização do espírito e da sensibilidade liberal no trato das coisas no mundo da economia e da vida com sua vontade de completar o que o plano Marshal inciou, ou seja, a ideologia do “estadounidencismo”, o norte americanismo do mundo, é, por outro lado, o sonho de conquista de unanimidade acalentado por todas as chamadas utopias coletivistas cujo jogo, no campo da dominação, do poder, não tem sido tão sutil como o realizado pelo neoliberalismo. Ver: Mounier, Le pact atlantique, de maio de 1949, escrito com a colaboração política de Paul Fraisse e Jean-Marie Domenach, in Les certitudes dificiles, Oeuvres IV, coletânea de textos de 1933 a 1950, p. 217.    
[49] Révolution ..., op. cit., p. 431.
[50] Para outra crítica personalista, ver: René Habachi Borne, Étienne, Les Nouveaux Inquisiteurs, Paris, “Le pohilosophie”, 1983, pp. 172 ss.; in Bulletin des amis d’Emmanuel Mounier, Numéro 60, Octobre 1983, pp. 22 ss.
[51] De la Proprieté Capitaliste a la Proprieté Humaine, Oeuvres I, 1934, p. 446.
[52] Locke, John, O segundo ensaio sobre o governo – um ensaio referente à verdadeira origem, extensão e objetivo do governo civil, pp. 777 ss., in Dois tratados sobre o governo, Martins Fontes, São Paulo, 1998, passim. 
[53] Great Books of the Western World; Nº 35; Locke, John, An Essay Concerning Human Understanding, Willian Benton, Publisher, ENCYCLOPÆDIA BRITANICA, INC - 1978. Em Português, pela Coleção: Os Pensadores, Locke, John, Ensaio Acerca do Entendimento Humano, Abril Cultural, São Paulo, Iº edição, 1973.
[54] Percebemos isso logo nas primeiras linhas do An Essay ..., op. cit, IV, 17.
[55] Se tivesse que citar passagens de os Dois tratados que corroboram esta minha afirmação teria de citar praticamente o livro todo. Para isso, remeto à leitura, para quem tiver paciência, dos Dois tratados onde o leitmotiv da salvaguarda e usufruto da propriedade é uma constante. Todavia, no Segundo tratado, op. cit. p. 495 § 124, diz Locke: “O fim maior e principal para os homens unirem-se em sociedades políticas e submeterem-se a um governo é, portanto, a conservação da propriedade.” Reduzir um ato tão fundamental e complexo da existência espiritual da pessoa em sua dimensão coletiva, comunitária, à conservação da propriedade, é uma redução que o Ocidente aceitou e da qual estamos ainda muito longe de medir o alcance destrutivo, mas cujo preço está se mostrando cada vez mais claro e caro.           
[56] Sós os proprietários, os que detêm a posse do verdadeiro movente social, são cidadãos integrais, podem exercer sufrágio. A noção de povo é apenas expediente retórico em Dois tratados. Serve para justificar como um ser celerado surge do caos, fora da organização racional liberal, por necessidade de “revolução”, quer dizer, de reposição das coisas conforme a cartilha do liberalismo lockeano, “quando não mais houver juiz sobre a terra” (op. cit., p. 535). Quer dizer, quando o esquema juridista da “legalidade liberal” de fundamentação da sua sociedade dos proprietários gerar o seu filho rebelde, o tirano. Locke, obviamente, não pensa assim. Para ele o “povo”, que poderíamos chamar de “multidão”, é o espelho coletivo desordenado com o qual o tirano vai ter de se deparar. Na verdade, a corrupção coletiva do governo tirânico, que Locke concede que possa se dar nas mãos de “alguns” – tirania do legislativo (loc. cit.) –, ainda é motivo para que se retorne a sua democracia dos proprietários, cujo número, realmente será maior do que o dos componentes do legislativo tirânico. Esse fator numérico da democracia dos proprietários, para Locke, não justifica que se o denomine de “tirânico”, como se pode fazê-lo em relação ao pequeno número do legislativo tirânico. A defesa da propriedade, sendo “o” critério racional da fundamentação da vida social, quer dizer, “da natureza” mesma mais íntima dela, encontra sua elucidação cabal na teoria lockeana que, portanto, não obstante a subsunção de todo complexo da existência coletiva que ela realiza ao dado “único” da defesa da propriedade, por ser “racional”, quer dizer “da natureza”, é a unidade legítima sobre a qual o vínculo social pode se estabelecer. Podemos dizer então que o povo para Locke tem esse papel específico de espelho coletivo do tirano, este sob sua forma unitária ou plural, e não de suas teorias. A entrada em cena dos proprietários, os verdadeiros cidadãos, implica, para Locke, a negação do tirano e do povo, que saem de cena tanto um quanto o outro. E assim prosseguirá o “otimismo liberal da teoria” e pessimismo visceral em relação à pessoa criadora e o povo.        
[57] Manifeste ..., op. cit., p. 592. Desde o primeiro número de Esprit em 1932, o economista personalista, André Ulmann, participou ativa e assiduamente na elaboração de um pensamento e projeto econômico de inspiração personalista, o qual Mounier define como economia pluralista e descentralizada até a pessoa. As noções atuais de economia solidária e de formação de cooperativas se enquadram dentro da perspectiva econômica personalista que, por sua vez, nutre-se da inspiração prodhouniana. Alguns dos principais artigos de André Ulmann lançados em Esprit são: “La vocation de l’économie” (novembro de 1932), que é a de estar a serviço do ser humano e não o contrário; e em abril de 1933, ele apresenta, nessa mesma perspectiva, uma “Declaration des droits de l’homme économique”; ao se tornar rapidamente secretário da revista Esprit, torna-se animador de um grupo crítico da situação econômico-social e participa do número especial “L’argent, misère du riche, misère du pauvre” (janeiro de 1936) com um longo estudo crítico sobre a “L’émigration, problème révolutionnaire”. Na coleção “Esprit”, é devido a ele o lançamento do segundo livro, depois do de Mounier, Rèvolution personnnalista et communautaire, que se inttiula Police, le 4ª  pouvoir (Paris, Aubier-Montaigne, 1935). Cf. Mounier, Paulette, “resenha” do livro André Ulmann ou le Juste Combat, Paris, Sté des Ed. Internationales, 1982, de Michel Goildschmidt et Suzanne Tenand-Ulmann, in Bulletin des amis d’Emmanuel Mounier, Numéro 60, octobre 1983, p. 18.     
[58] Révolution ..., op. cit., p. 238.
[59] Essa é a posição apresentada em entrevista de televisão pelo Diretor do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, Dr. Sérgio Adorno. O Dr. Sérgio Adorno, em outra entrevista que consta no blog abaixo citado, diz o seguinte quanto à relação entre pobreza e violência: “... existe uma co-relação estatística entre más condições de infra-estrutura urbana, população pobre e vítimas preferenciais da violência. ... a pobreza e a desigualdade não explicam o crime, o crime está disseminado por toda a sociedade. Mas elas explicam, provavelmente, a maior incidência da criminalização e da punição sobre os mais pobres.” Quais são os pressupostos que estão na base desta interpretação de dados meramente quantitativos? Divide-se para dominar, generaliza-se para ocultar. Vemos o sociologismo fechando o cerco. O neokantismo de fundo desta perspectiva fica também evidente, quando o professor Sérgio pede para que se analise uma questão como a do abortamento, por exemplo, de maneira menos apaixonada. Mas ele diz que se houver a paixão, esta não deixará de ter alcance público. Sem dúvida essa concessão inevitável à paixão, no âmbito da democracia liberal, se dá porque a sua discussão possível se fundamentará sobre um conteúdo gnosiológico legal a priori aceito como fundamento bastante, onipotente. Será dentro dos limites da lógica interna deste seu conteúdo legal noético que o neokantismo permitirá o desenrolar da discussão. Não obstante o reconhecimento que há por trás também destas afirmações de que não se deve estigmatizar o pobre como criminoso, todavia, essa boa intenção acaba servindo ao conservantismo social. Enfim, em tudo isso, o capitalismo e os seus pares, a sociedade hipócrita injusta, naquilo em que poderiam ser responsabilizados, saem incólumes e com os louros ainda de uma plena justificação através de um discurso denominado científico. (http://blog.zequinhabarreto.org.br/2008/07/21/entrevista-com-srgio-adorno-revista-e-sesc/)

[60] As quais sempre prometeu.
[61] Se as coisas não mudaram muito, e acredito que não, creio que poderíamos estender, mutatis mutandis, o prazo para o nosso século XXI com a nova versão dominante chamada neoliberalismo.
[62] Qu’est-ce que le Personnalisme?, Oeuvres III, 1947, p. 238.

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